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  • Foto do escritorMárcia Carneiro

A lenda do homem que sabia tudo

Atualizado: 29 de set. de 2022




Quando Itzal nasceu, o dia estava especialmente escuro e sombrio. A chuva fina caia ininterruptamente. Seu pai, que não era lá muito bom de ideias, achou que ficaria bonito homenagear aquele clima, dando ao seu filho o nome de Itzal, que em basco quer dizer sombra.


Itzal cresceu e tornou-se um homem bastante singular. Quem olhava para ele, não era capaz de lhe dar nenhum vintém. Simplório, falava errado, engolia os “esses” e não conjugava bem os verbos. Mas ele gostava de dizer, sempre que tinha uma oportunidade, que era “doutor”.


Ele era o típico “cidadão do bem”. Tinha conduta impecável e moral ilibada. Seu olhar – de quem quer sempre ajudar – era sedutor e passava confiança, pelo menos à primeira vista.


Corria o boato que ele não entendia de nada, era burro. Mas de burro Itzal não tinha nada. Ficava ali quietinho, observando – quase invisível. Muitas vezes, deixava-se até ser humilhado. Mas era rancoroso e guardava tudo bem guardadinho, em sua caixinha-de-coisas-para-não-se-esquecer.


Aliás, sua memória era invejável. Lembrava-se de cada palavra, gesto e informação que lia ou ouvia. Tinha muita facilidade para absorver qualquer coisa, fosse para o bem ou para o mal.


Se gostava da ideia, logo estava repetindo-a, como se fosse de sua própria autoria. Se lia uma coisa e achava inteligente, reproduzia-a incansavelmente, como se fosse a descoberta de uma tremenda panaceia. E ficava orgulhoso de si mesmo. Dava para ver em seu olhar. Tinha um brilho diferente, que às vezes até assustava. Mas poucas pessoas percebiam esse traço, pois ele disfarçava fazendo troça, contando piada, desviando o foco.


Assim, com bom-humor e um jeitinho manso, ele foi ganhando espaço. Ficou tão espaçoso que, quando menos esperavam, Itzal virou o dirigente-mor do País Eguzkia.


“Ah, que bom!”, comemoraram uns. “Ai, meu Deus!”, disseram outros. Mas o fato mesmo é que ninguém sabia o que esperar daquele líder tão contraditório.


No começo, ele queria dar a mão para todo mundo, fazer roda de conversa, falar de sentimentos. E ele dizia: “Olha, sou seu amigo”. “Veja, temos de ser colaborativos”. “Agora, tudo vai ser diferente!” Nada do que tinha sido feito, antes de sua liderança, tinha valor. Precioso mesmo era o que estava por vir. Itzal empavonou-se.


O sol se põe e vem a peste

Coincidência ou não, desde que Itzal assumiu o poder, o sol se pôs no país e nunca mais voltou a brilhar. Ao mesmo tempo, uma grande peste acometeu a população de Eguzkia - na verdade, do mundo. Era uma doença desconhecida, que vinha de diferentes partes e matava as pessoas, ninguém entendia como. Era um pesadelo, só que todos estavam acordados.


Sobre isso, logo Itzal formou opinião. “Ah, isso não é nada! Nunca vi povo tão medroso. Eu sei do que estou falando, sou cientista”. Só que ele não era nem médico, nem pesquisador. Mas era “doutor”. E, quando alguém morria, seu consolo era dizer: “Todos nós vamos morrer um dia”.


As pessoas não concordavam com ele, especialmente seus subordinados diretos. Alguns daqueles que estavam ao seu lado – ele guardou –, já tinham feito muito desaforo para ele. Sabe aquela caixinha? Ele abriu e, dali, começou a sair tanta coisa que, ao invés de respeito, ele ganhou temor.


Os poucos que se atreviam a falar com ele eram espinafrados em público. E acabavam perdendo o prestígio. O clima começou a ficar tenso. Quanto mais tenso ficava, mais poderoso Itzal se sentia. “Eu mando aqui”, ele apregoava. “Ninguém sabe nada”, profanava. Aos pouquinhos, mas rapidamente, ele colocou todos os seus líderes no bolso. E em todos os cantos de Eguzkia ele caminhava dando ordens, que contrariavam as anteriores.


O fato é que ninguém mais respeitava ninguém. Se alguém não gostava do que seu chefe direto fazia, ou dizia, corria para contar para Itzal. E quanto mais as pessoas recorriam a ele, mais se sentia poderoso. Era ele quem sabia e decidia tudo. Se fosse preciso, passava por cima. O “humilde homem do bem” deu lugar a um homenzinho infame.


Itzal passou a reinar absoluto. Não tinha mais humildade, meias palavras, nem conversas brejeiras. Dentro dele – e fora também – só tinham restado o trovão e a fornalha. Ele intimidava. Quando não era no grito, era no olhar.


Alguns de seus líderes pediram para sair, outros foram convidados. Ficaram mesmo aqueles que ainda suportavam dizer “amém” a tudo que dizia. Era disso que ele realmente gostava.


Encastelado, Itzal fez valer o significado do nome que lhe deram ao nascer. Se antes, era na sombra dos outros que ele habitava, agora ele fazia sombra a todos à sua volta.


Enfeitiçado pelo seu próprio poder, Itzal acabou sendo engolido por sua própria sombra. Há quem diga que, de tempos em tempos, ele ressurge, para arrebatar os desatentos. Por isso, é bom ficar sempre alerta: sua sombra, disfarçada de calmaria, é desgraça certa.

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